domingo, 6 de setembro de 2015

HÁ 43 ANOS ATRÁS




Há exatos 43 anos atrás, dia 02 de Setembro de 1.972, estes dois jovens uniam-se em casamento, sem terem noção de que estavam dando a partida em um grande e complicado objeto voador, passível de cair diante da mais leve imperícia. Só que nós não tínhamos a mínima idéia de como dirigi-lo e conseqüentemente, de como aterrizá-lo em caso de necessidade.

Pois apesar de todos os vaticínios de que esta relação não iria durar, já que éramos praticamente duas crianças, passados 43 anos continuamos voando e mesmo diante das inevitáveis turbulências, aprendemos em pleno vôo a dominar esta máquina assustadora que é o casamento. Inclusive hoje, servimos de exemplo e somos instados a dar conselhos para muitos outros casais que se encontram em momentos dificuldades em seus relacionamentos afetivos.

E para coroar esta união, geramos três filhos maravilhosos, criados sob a égide de um valor que para nós sempre foi inestimável que é justamente o do conhecimento. Ao contrário de muitos pais, nós nunca ensinamos nossos filhos a colocarem suas vidas a serviço da busca de bens materiais. Assim como fazíamos com todos os que nos cercam, nós sempre os ensinamos que o conhecimento é a maior riqueza que qualquer pessoa pode amealhar em sua transitória passagem pela vida.

Para nosso orgulho, hoje os três já alçaram seus próprios vôos, seguem suas trajetórias iluminando caminhos e mentes, sempre distribuindo sementes de solidariedade pelo mundo afora.

Bem, aquele burburinho do som das crianças, dos adolescentes e dos estudantes hoje silenciou e na velha casa da família, ficamos só nós dois, acompanhados pelo nosso cão Floquinho e dois gatos dos vizinhos que nos visitam regularmente. Mas a sensação que temos é exatamente a daquela paz de espírito que invade qualquer pessoa diante da certeza da missão cumprida.

Um abraço a todos os que nos acompanharam nesta revoada, ainda que por alguns momentos, e queremos dizer que pretendemos continuar voando por muitos anos ainda, pois nosso entusiasmo pelo conhecimento de novas idéias, coisas e caminhos, continua aceso em nossas mentes, eternos aprendizes que somos.

Jorge André Irion Jobim e Clarinha Jobim

KARIMAN. UM TEMPO PARA RECORDAR


A sexta-feira de ontem (28/08/15), foi um dia bastante aprazível, ao contrário dos dias turbulentos que eu vinha passando ultimamente. Durante a tarde, recebi a visita de uma velho parceiro de música que atualmente reside na Bolívia e veio passar uns tempos com a família aqui em Santa Maria.

Trata-se do amigo Taby, guitarrista com o qual eu toquei desde os 15 anos de idade e com o qual fundamos a banda Os Rebeldes nos anos 60 e posteriormente o grupo Kariman, já nos anos 70.

Há 34 anos atrás, exatamente no ano de 1981, paramos de trabalhar juntos e cada um seguiu o seu caminho, sendo que durante este tempo, muita água rolou por debaixo da ponte.

Foi uma tarde de muitas recordações de um tempo em que o rock era ainda produzido de maneira artesanal e não tinha este glamour que tem hoje. Nós mesmos comprávamos nossa aparelhagem (caríssima, por sinal), aprendíamos eletrônica para consertarmos nosso instrumental, carregávamos o equipamento e, pasmem, chegávamos até a transportar todo o nosso material de carroça. Felizmente sempre havia algum amigo maluco que emprestava um jogo de luz, outro que desenhava os cartazes feitos à mão para divulgarmos nossos shows e assim levávamos nossos sonhos adiante. Na verdade, podemos chamar de um “rock solidariedade”.

Ele me trouxe algumas fotos que me deram muita alegria, já que eu não as possuía, pois na época, ao contrário de hoje, elas eram um produto de luxo e muito poucas temos daquela época mágica.

A foto que aí está, é de 1972 e foi tirada na frente da antiga TV Imembuí, emissora atualmente pertencente à RBS TV, afilhada da Rede Globo. Fomos até lá nos apresentarmos em um show ao vivo, durante o qual tocamos músicas de Chuck Berry, Little  Richard, Beatles e outras tantas de nossa autoria. Aliás, temos o orgulho de afirmar que fomos a primeira banda essencialmente de rock e também de termos sido os primeiros a apresentar 50% de músicas autorais aqui em Santa Maria.

Logo após, incentivados inclusive pelo pessoal da TV Imembuí que afirmou ter recebido vários telefonemas dizendo que nós devíamos ampliar nossos horizontes, fomos trabalhar em Porto Alegre, época em que ficamos bastante conhecidos nos famosos shows de rock que permearam o início dos anos 70. Tivemos a honra de trabalhar com bandas como o Bixo das Seda (do Mimi e Marcos Lessa, Pecos, Cláudio Vera Cruz, Fughetti Luz e Edinho Espíndola),  Bobo da Corte (da Gata e do Zé Vicente Brizola, filho do político Brizola que à época estava exilado) Utopia de Bebeto Alves, Bizarro, Khaos, Fruto Proibido, Prelúdio e tantas outras.

Foi um tempo mágico, mas que terminou e hoje permanece apenas na lembrança daqueles que tiveram o privilégio de vivê-lo. O show de rock hoje é uma superprodução, um mega evento com tudo calculado a cada minuto, não admitindo um erro sequer. Perdeu a sua principal característica que era justamente o caráter de improvisação e superação das dificuldades materiais.

Mas tudo bem, vida que segue e cá estou eu de volta às minhas teses jurídicas, jurisprudências, petições e decisões a tomar a respeito de vidas de pessoas que colocam seus destinos em minhas mãos. Faço isto de bom grado, pois acredito estar influenciando minimamente nos destinos de minha comunidade, muitas vezes levando uma palavra de alento e solidariedade a pessoas que tanto necessitam da ajuda de alguém.

Mas que é bom recordar daqueles tempos, lá isto é. Pois é amigo Taby, não conseguimos mudar o mundo com nossas canções conforme sonhávamos, mas não podemos dizer que não tentamos.

Na foto, o baterista Betinho, o contrabaixista Eduardo Camello, o guitarrista Taby que era nosso cantor mais rock and roll e bem abaixo com os longos cabelos repartidos ao meio, eu com minha velha guitarra Begger. Bem, os bons observadores já terão percebido que nosso contrabaixista era canhoto. Será que dá para perceber que banda era nossa principal influência?

Jorge André Irion Jobim.

TESTEMUNHA OCULAR DA HISTÓRIA



Os mais jovens talvez nunca tenham ouvido o slogan “testemunha ocular da história”, termo que era utilizado no famoso Repórter Esso, programa de rádiojornalismo que encerrou suas transmissões em 31 de dezembro de 1968. Era através dele que ficávamos sabendo tudo o que acontecia por este Brasil afora.

Pois eu sou uma destas legítimas testemunhas oculares da história, em primeiro lugar pela idade e também em virtude de ter herdado de meu saudoso pai esta tendência a ser politizado desde a tenra infância. Ele era Getulista ferrenho e depois de seu suicídio, tornou-se Brizolista, tendo sido adepto do Campanha pela Legalidade de 1961 liderado por Brizola, momento em que quase foi deflagrada uma guerra civil entre os brasileiros que defendiam a posse de João Goulart e aqueles que eram contrários a que isto viesse a acontecer.

Pois eu digo com muito orgulho, que cheguei a ser presidido por Getúlio Vargas e embora eu fosse ainda um menininho, tenho vívidas lembranças sobre o dia em que recebemos a notícia de que ele havia se suicidado e ainda me lembro de meu pai chegando em casa bastante desolado. Um pouco antes dele falecer, em nossa última conversa, falamos sobre aqueles acontecimentos e ele me revelou que naquele dia havia brigado com um colega de trabalho que havia chegado  exultante com o suicídio do Presidente Vargas, gritando “felizmente morreu o Pai dos Pobres”.

É de se ressaltar que naquela época, desde meninos nós já tínhamos posicionamentos políticos e freqüentemente nos envolvíamos em sérias discussões na defesa de nossas convicções. Recordo que já com nove anos, nas eleições de 1960, eu fiz campanha para o Marechal Lott que, apesar de militar, era o candidato que eu entendia ser o mais progressista entre todos os concorrentes. Nós jovens comprávamos pequenos broches com uma espada que era o símbolo da campanha de Lott e os revendíamos a preço de custo para os eleitores que quisessem carregar na roupa sua preferência política.

Os outros candidatos eram Ademar de Barros (apelidado de “rouba mas faz”), cujo símbolo era um bote salva-vidas e Jânio Quadros, que tinha como símbolo uma vassourinha com a qual ele prometia varrer a corrupção que campeava pelo Brasil. Jânio Quadros acabou vencendo com 48% dos votos do eleitorado, contra 32% dados a Henrique Teixeira Lott e 20% a Ademar de Barros. Deu no que deu.

Bem, eu poderia me estender por muito tempo e falar de maneira mais detalhada sobre alguns acontecimentos ocorridos durante a Campanha pela Legalidade de 1961 e do Golpe Militar de 1964, mas vou deixar para outra hora, já que eu aprendi que atualmente, textos muito longos não são mais lidos.

De qualquer maneira, não posso deixar passar em branco a data de hoje, justamente o aniversário do suicídio do ex-Presidente Getúlio Vargas, aquele que abriu as portas para uma série de direitos que beneficiavam as camadas mais pobres da população. E como prova desta minha vocação à participação política, eis-me aí nas fotografias portando um jornal exatamente do dia de seu suicídio no fatídico dia 24 de Agosto de 1954. Ele é uma herança de meu pai que eu conservarei até o fim de meus dias, sendo que após minha morte ele será repassado para meu filho que é professor de História na cidade de Bagé.

Jorge André Irion Jobim




segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

A CASCA DO OVO


Aos 19 anos eu li um livro de Hermann Hesse chamado Demian que continha uma frase na qual ele dizia que “quem quiser nascer precisa destruir um mundo". Naturalmente ele não queria afirmar que deveríamos destruir o mundo real, mas sim aquele nosso mundo particular construído culturalmente com nossas crenças, preconceitos, dogmas, medos, ideologias, todas elas tão enraizadas em nosso interior que acabam nos aprisionando e nos impedindo de nos movimentarmos na busca da verdadeira luz da vida. Significa que enquanto não rompermos a crosta cultural que nos envolve, não conseguiremos nascer realmente.

Em um momento em que eu estava em uma encruzilhada entre seguir o rumo que a família já havia me determinado a trilhar e aquele que meu coração impelia a seguir, eu escolhi o segundo. É claro que eu paguei um preço alto por minha escolha, pois até hoje sou considerado aquele cara que tinha o instrumental necessário para “vencer” no sentido capitalista da palavra, e que abriu mão de tudo para buscar um caminho totalmente alternativo. Tu mesmo sabes que eu praticamente não comungo com nenhum daqueles valores que são cultuados pelas demais pessoas. Abomino religiões, estados, patrimonialismo, capitalismo, consumismo e tantos outros “ismos” que praticamente movem o mundo em que vivemos. De tanto pregar em vão contra tudo isto, hoje eu me considero apenas um mero observador das coisas que estão acontecendo, sempre com a certeza de que o caminho que estamos trilhando inexoravelmente irá nos levar ao fim do planeta se não pararmos imediatamente. Como sei que isto não vai acontecer, só me resta imaginar por quanto tempo ainda haverá vida na terra. 

Pois bem. Pelas coisas que dizes sentir, penso que talvez estejas em franco processo de rompimento com o teu velho mundo e na iminência de um novo nascimento. E se for assim, deves te preparar, pois nesta caminhada sempre vamos nos deparar com muitas incertezas, dores e medos. De qualquer maneira, mesmo sendo o parto um momento extremamente doloroso, um nascimento é sempre uma coisa maravilhosa. É só deixar fluir naturalmente, pois certamente com o que já aprendeste na tua vida anterior, terás discernimento para sopesar os novos valores que se insinuarão em tuas futuras descobertas. Muita força e muito brilho nesta hora. Abraços.   

Jorge André Irion Jobim (Dedicado à minha filha Letícia Jobim)

segunda-feira, 23 de julho de 2012

A CASA VAZIA


Logo pela manhã, fiquei contemplando a casa vazia. Ali estava ela, impassível, alheia aos sentimentos que me afloravam aos borbotões naquele momento. Abri a porta e entrei, me deparando com alguns poucos objetos que ficaram para trás. Mas descobri que o vazio de uma casa não se configura apenas pela ausência de mobiliário, pois aquele que se instala em nossa alma em virtude da ausência das pessoas e outros seres vivos que nela habitavam nos ferem muito mais e de forma irreversível. Dei-me conta que não verei mais minha filha que morava ao lado de minha casa, sair pela manhã para o trabalho, sempre correndo, pois o tempo de quem trabalha e faz uma faculdade é sempre escasso. Eu que sempre observei embevecido o crescimento de minha neta, que há pouco tempo atrás ainda brincava com bonecas, bichos e plantas, percebi também que lamentavelmente não vou poder continuar acompanhando de perto seu crescimento, principalmente nesta fase de pré-adolescência em que ela já se encontra. Sem falar no cãozinho Koda, os gatos Ozzi e Pretão, sempre disputando o colo e as atenções de qualquer pessoa que entrasse na casa.

Tentei curar a minha dor apelando para aquelas velhas e surradas frases como “é a vida, afinal nós criamos os filhos para o mundo”. Não deu certo. Algumas dores não têm cura e uma delas, é a dor da separação de pessoas que amamos.


O que ameniza um pouco este meu sentimento de perda, é o fato de que minha filha Silvie Janis, logo após realizar seu objetivo de se formar em um curso que era o sonho dela (designer), vai começar a trabalhar na área que escolheu e para a qual eu sempre achei que ela tinha vocação, eis que envolvia uma atividade artística e uma coisa que ninguém duvida é que ela seja uma artista nata. Infelizmente o complemento de seu sonho, somente poderá ser realizado em um tipo de empresa que somente é encontrado em outros municípios. Assim sendo, após o devido prazo de experiência, ela foi contratada e em um gesto de coragem e arrojo que sempre lhe foi peculiar, resolveu mudar-se de “mala e cuia” para a outra cidade que a acolheu tão bem.

Pois no dia 28 de Junho, ao levar minha neta Nathalia para a escola, durante todo o trajeto, tive que esconder as lágrimas que teimavam em correr dos meus olhos. É que eu havia sido alertado para a dimensão daquele momento logo pela manhã quando me disseram que na próxima semana ela já estaria levando sua alegria e seu brilho a uma nova cidade deste Rio Grande do Sul. Aquela, portanto, era a última vez que eu cumpriria aquela tarefa que algumas vezes, devo confessar, eu me desincumbi um pouco contrariado por entrar em conflito com algum outro de meus interesses. Naquele momento, todos aqueles seus resmungos e atrasos na hora de sair para a escola, se desvaneceram e eu senti que eles ainda me trariam muitas saudades. Eu tratei de fixar na retina aquela imagem da última vez que ela descia do carro com os livros do colégio na mão e me dava tchau, desaparecendo na esquina.

Para elas que partem, novos horizontes com conquistas, surpresas, experiências, novidades que poderão se encontrados por estes “mares nunca dantes navegados”. Para nós que ficamos, um mar de lágrimas pela distância que nos separa destas pessoas cujas presenças nos marcaram tão profundamente. A partir do fim do mês de Junho, Santa Maria perdeu um pouco de seu brilho e encantamento. Ao menos para nós.

Jorge André Irion Jobim


Publicado no jornal A Razão de Santa Maria, RS, no dia 20 de Julho de 2.012

http://arazao.com.br/20072012_edicao.pdf


domingo, 15 de janeiro de 2012

NAS ASAS DA IMAGINAÇÃO



Na minha tenra infância eu tive uma amiga secreta. Era uma pequena ave com a qual eu conversava e que dizia chamar-se Imaginação. Todos os dias ao entardecer, nós nos encontrávamos perto de algumas árvores que existiam ao lado de minha casa naquela pequena cidade do interior em que eu morava e ela me deixava montá-la, partindo comigo em longas revoadas pelo céu aberto. E lá ia eu feliz cruzando os ares e olhando tudo sob aquele novo ângulo que me permitia a minha amiga Imaginação. Viagens incríveis durante as quais íamos conversando e trocando nossas impressões a respeito de tudo o que víamos.

Nossa amizade parecia indestrutível. Até o dia em que eu falei sobre minhas aventuras para uma menina mais velha que morava nas redondezas e ela, rindo de mim, afirmou que eu estava sonhando, afinal, aves não falam. E depois, como poderia um pássaro tão pequeno carregar um menino tão grande? Minha história não tinha pé e nem cabeça, contrariava todas as leis da ciência e da lógica, disse-me ela zombando de minhas afirmativas.
O que eu não sabia, é que naquele momento Imaginação vinha chegando para me encontrar e escutou tudo o que a menina havia dito. Aquelas palavras foram como uma pedrada atirada por um bodoque chamado realidade. Elas atingiram em cheio minha amiga Imaginação, quebrando-lhe uma das asas e derrubando-a ao chão. Tentei ajudá-la, mas, assustada, ela correu e embrenhou-se no meio das árvores desaparecendo de minha vista. Todos os dias eu voltava ao local de nossos encontros, porém ela nunca mais retornou, até o dia em que tivemos que mudar de cidade em função do trabalho de meu pai.

Muitos anos se passaram e por muitos lugares eu passei. Em cada um deles eu lançava meu olhar em todas as direções na esperança de reencontrar a minha velha amiga de infância. Isso nunca mais aconteceu. Eu até encontrei uma outra ave que, de tão bonita que era, eu apelidei de Utopia e da qual eu tentei me aproximar e conversar. Foi inútil. Ela não me respondeu e fugiu para longe como fazem todas elas diante da proximidade dos indesejáveis seres humanos.

De qualquer maneira, eu não perdi a esperança e como se fora uma obsessão, eu até hoje ainda sonho com o dia em que voltarei a encontrá-la. E quando isso ocorrer, mais uma vez como naqueles velhos tempos, ainda que em um derradeiro vôo, eu viajarei em direção ao infinito nas asas da minha velha amiga Imaginação exatamente como eu costumava fazer no alvorecer de minha vida.

Jorge André Irion Jobim

Publicado no Diário de Santa Maria, RS, no dia 10 de Janeiro de 2.012



quinta-feira, 19 de maio de 2011

A DONA DO MUNDO

Era hora da minha caminhada diária ao entardecer. Eu vinha subindo a Rua Venâncio Aires, quase na esquina com a Floriano Peixoto, quando repentinamente uma menina de uns quatro anos no máximo, atravessou a rua correndo. O que me chamou a atenção foi o fato de que ela trazia estampado no rosto um largo e inocente sorriso, parecendo carregar por dentro uma alegria tão grande que mal cabia em seu corpinho franzino.

Curioso, diminui o passo e fingi estar olhando uma vitrine para tentar entender o que estava acontecendo. Percebi então, que ao atravessar perigosamente a rua, a menina corria na direção de uma mulher sofrida e maltrapilha que estava do outro lado, sentada no degrau de uma casa junto a algumas sacolas que certamente continham todos os seus pertences. Ao chegar perto daquela que deveria ser sua mãe, a garota falou alegremente: “o homem disse que nós podemos comer depois da uma hora da madrugada”. Ficou evidente que a menina havia ido até o restaurante que existe do outro lado e pedido algum alimento, tendo recebido a resposta de que elas poderiam no final da noite, buscar as eventuais sobras de comida que não tivessem sido consumidas pelos fregueses habituais.



A mãe com um ar cansado e envergonhado pegou a filha pela mão e de cabeça baixa, saiu caminhando vagarosamente como se carregasse sobre as costas todas as mazelas do mundo. A menina, ao contrário, sem ter ainda a noção exata de tais desditas, a acompanhava, levando no semblante aquela felicidade de quem já estava tentando adivinhar qual seria o menu que lhe apresentariam no jantar.

A cena me marcou profundamente. Eu fiquei imaginando aquela criança em sua inocência, sentindo-se como se fosse dona do mundo e acreditando que a cidade é o seu castelo. Um daqueles castelos tão grandes que ela chega a cansar de andar por dentro dele sem nunca conseguir conhecer todos os seus aposentos. Ah, e aquele e outros tantos homens para os quais ela pede comida, são os seus cozinheiros e mordomos sempre prontos a atenderem todos os seus mínimos desejos, enquanto que os vários restaurantes são as suas cozinhas particulares. Seu quarto de dormir é tão vasto que ela não possui uma cama convencional. Na verdade, ela dorme em qualquer local onde possa estender algum dos cobertores surrados que a mãe carrega em uma das suas sacolas. Ela se sente uma privilegiada de adormecer olhando as estrelas e sonhando com os locais que irá percorrer no dia seguinte, pois, como dona do mundo que é, precisa conhecer todos os seus domínios.


Que pena menina. Infelizmente vais crescer e um dia, como que acordando de um sonho bom, irás te deparar com as misérias e maldades do mundo. Terás uma grande desilusão ao perceberes que os seres humanos não são os anjos de bondade que tu achavas que eram. Que na verdade, eles criaram um mundo em que alguns poucos são privilegiados e a grande maioria, vive para manter os privilégios destes poucos. E que existe ainda, uma derradeira classe de pessoas que nada têm, que sequer possuem um lugar para dormir ou um prato de comida para comer, precisando se humilhar e esperar pela benevolência de alguém para continuarem sobrevivendo. E que dentre estas pessoas tu estás incluída.

Irás perceber então que não eras a dona do mundo mas sim, uma espécie de pária da sociedade, destas que ficam enfeando a cidade e causando receio nas pessoas que passam rapidamente sem sequer lhe pousar os olhos, ainda que por alguns segundos.

De qualquer maneira, enquanto não despertares, segue sonhando menina. Aproveita estes tempos de inocência para andares alegre pelos corredores da tua mansão, sempre perguntando aos teus fiéis mordomos qual o horário em que eles irão te servir o jantar.

Só uma coisa te peço menina. Quando acordares do sonho e te deparares com tua triste realidade, por favor, não te desesperes. Não sucumbas como fazem tantas outras pessoas em tua situação. Se afinal, não és a dona do mundo, conquistes ao menos uma parte dele e se estiveres insatisfeita com a cara com que ele se lhe apresenta agora, reconstrua-o de acordo com os teus desígnios. Não percas a esperança jamais e tentes concretizar no futuro, os sonhos que hoje tu carregas no brilho destes teus olhos inocentes. Um brilho tão intenso que deixou uma marca indelével em minha alma, servindo ainda hoje como uma espécie de estrela-guia a me conduzir na minha eterna caminhada em busca da tão almejada solidariedade entre os seres humanos.

Jorge André Irion Jobim. Advogado de Santa Maria, RS

Postado no site Web Artigos

http://www.webartigos.com/articles/64712/1/A-DONA-DO-MUNDO/pagina1.html







sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

TRIBUTO À SILVIE JANIS JOBIM


Foram duas formaturas em menos de um ano. Ela é mesmo uma lutadora que nos surpreende a cada dia. Na mais recente, formou-se DESIGNER no curso da Unifra, embora ela já tenha nascido artista. Tem um talento natural para a arte que agora, somado ao conhecimento formal, acaba resultando em uma mistura imbatível.

Parabéns à minha filha Silvie Janis Mossate Jobim. Ela é uma inundação de criatividade jogada no planeta, tão necessitado de pessoas assim, combativas e com poder de transformar tudo para melhor.

Para homenageá-la, eu coloquei meus dois neurônios em funcionamento, desenferrujei os dedos, fiz alguns exercícios vocais (cadê a minha voz?) e compus uma música denominada Tributo à Silvie Janis. Peguei meu velho violão já fora de escala e gravei em um programa caseiro. A qualidade é baixa mas dá para ter uma idéia da canção.

TRIBUTO À SILVIE JANIS



Jorge André Irion Jobim

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

UM BALDE D´ÁGUA


Econsciência

Observando a grande quantidade de água tratada que se perdia pelo ralo do banheiro enquanto eu tomava banho, foi que me veio a idéia de colocar debaixo de meus pés uma bacia para recolher aquela água que eu passei a guardar em um balde e a utilizar posteriormente para lavar o vaso sanitário.

A idéia pegou e logo toda a minha família aderiu a ela. Hoje mantemos sempre dentro do banheiro, não um, mas vários baldes nos quais vamos armazenando aquela água já utilizada. Como consequência, podemos afirmar que há mais de dois anos não puxamos a cordinha da descarga do vaso, o que faz com que deixemos de jogar fora uma grande quantidade de água que poderá servir para outras finalidades mais nobres que não a de limpar dejetos humanos.

Segundo pude me informar, a cada descarga que damos, no mínimo são desperdiçados seis litros de água potável. Segundo as normas brasileiras que regulamentam o tema, até o fim de 1999, era admitido que as bacias sanitárias consumissem até 12 litros d´água de descarga por ciclo. Mais tarde, visando reduzir o consumo per capita em nosso país, a partir do ano 2000 esse volume máximo foi reduzido para 9 litros e, a partir do ano 2002, para 6 litros. Segundo pesquisas, o vaso sanitário pode ser responsável por 25% a 30% do que se gasta em uma residência.

Bem, eu sou considerado um ecochato e a minha grande preocupação desde menino foi justamente a questão da poluição das águas e o desmatamento de nossas matas nativas. Para mim que cheguei a tomar banho no Rio Guaíba, foi triste assistir o processo de poluição desmedida a que foram submetidos os nossos rios com a consequente mortandade da grande quantidade de seres vivos que neles proliferavam. Aliás, eu sou um ateu assumido, mas sempre afirmo que se eu tivesse que eleger algum deus, eu faria tal qual os índios e escolheria um elemento da natureza para adorar. E esse elemento seria justamente a água. Ou um cão, quem sabe.

Conseqüentemente, a ideia não parou por aí. Logo estávamos colocando recipientes um pouco maiores do lado de fora da casa para captar a água das chuvas que nos outros dias são utilizados para regar as plantas (e para lavar o meu velho e claudicante Escort 84). Diga-se de passagem, que este é o grande segredo para o viço de nossos vegetais.

Bem, sei que muitas pessoas têm vergonha de aderirem a tais iniciativas, até porque velhas práticas de desperdício adquiridas em épocas de água em abundância são difíceis de serem erradicadas. Mas para aqueles que apenas passam a admirar um ideia quando ela lhes traz uma vantagem financeira, devo dizer que pesquisando na vizinhança, pude perceber que a nossa conta de água fica sempre entre a metade até um sexto do valor da conta de nossos vizinhos.

Além de ser um benefício para o bolso, é também um alívio para nossa consciência ecológica sabermos que estamos, através de um gesto simples como acumular água em baldes, cooperando para a preservação do meio ambiente com uma melhor utilização da água tratada.

Jorge André Irion Jobim


quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

LOJAS REPLETAS, TEMPLOS VAZIOS



Embora eu tenha muita religiosidade, não tenho nenhuma religião. Já em plena adolescência abdiquei de ter uma, não como um gesto de rebeldia, normal nessa faixa etária, mas como resultado de muita leitura, principalmente sobre a história da humanidade. Em virtude de fatos como inquisição, guerra santa, cruzadas, etc., acabei concluindo que se matou e continua se matando muito mais em nome das religiões do que propriamente salvando vidas. Passei então a comungar da idéia de John Lennon em sua canção Imagine, de que o mundo seria bem melhor sem elas.

Ainda assim, respeito a todas as religiões. Percebo a cada passo que elas estão se proliferando cada vez mais. Espero que ao invés de dividir, esse fenômeno sirva para unir e melhorar as pessoas.

Bem, de qualquer forma ao chegarmos ao final do ano, não há como escaparmos das diversas festividades, entre elas, a do Natal, comemorado no dia 25 de dezembro desde o Século IV pela Igreja ocidental e desde o século V pela Igreja oriental, data cujo real significado é a celebração do nascimento de Jesus, a sua vinda a esta terra, como Salvador. Nesta época, mais do que tudo, deveria ser uma data eleita para a reflexão, momento em que as pessoas deveriam elevar suas consciências aos mundos superiores, deixando que algo morresse em seus corações para que algo maior e mais sagrado pudesse nascer. Seria a oportunidade do renascimento em Cristo, de cultivar o verdadeiro amor cristão em todos os corações. Deveria aflorar nas pessoas a fraternidade, a caridade, a união, enfim, a mais pura expressão do amor.

Não é bem o que está acontecendo. No dia 24 de Dezembro do ano passado, acreditando que o centro da cidade estaria mais vazio do que os outros dias que antecedem o Natal, fui fazer minha caminhada costumeira naquela região. Pude perceber que havia muitas lojas e mercados ainda em plena atividade. Todas estavam apinhadas de pessoas, no seu afã de comprar aquele presente de última hora ou o produto que ficou faltando para a ceia de natal. Ao passar pelo antigo camelódromo, percebi que várias bancas estavam em pleno funcionamento, todas elas cheias de pessoas fazendo suas compras avidamente.

Ao ver a catedral do outro lado da rua, tive a curiosidade de entrar e tentar detectar alguém investido do verdadeiro espírito do Natal. Para minha surpresa, não havia ninguém lá dentro. Totalmente vazia, ao menos naquele horário. Resolvi então passar por vários outros templos religiosos que também celebram a festa natalina. Poucas pessoas encontrei neles. Pode-se dizer que a maior parte deles estava vazia.

Pois é. Parece que no embate entre o consumismo desenfreado e a religiosidade, o primeiro está vencendo de maneira avassaladora. As pessoas compram uma infinidade de coisas que na verdade não necessitam e que logo em seguida se transformará em lixo que irá prejudicar a natureza e ajudar a destruir o planeta. Por outro lado, fica jogado num canto, o que deveria ser o verdadeiro espírito do natal.

É isso aí. No Natal, lojas repletas e templos vazios.

Jorge André Irion Jobim. Advogado de Santa Maria, RS

Publicado no jornal A Razão no dia 29 de Dezembro de 2.010

http://www.scribd.com/doc/46018132/291210


segunda-feira, 29 de novembro de 2010

MÃES MENININHAS

Já não me causa mais admiração ver meninas recém saídas da infância, ficarem grávidas precocemente e totalmente despreparadas para a maternidade. Ainda ontem, eu vi passar na frente de minha casa, mais uma delas, com não mais do que 14 anos, carregando uma barriga que deixava clara a gravidez em estado bastante adiantado.

Pensei comigo mesmo em como o tempo passa depressa. Afinal, anteriormente, eu vi a mãe dessa menina passar na mesma calçada, grávida também, e sabem de quem? Isso mesmo. Dela, da menina a que estou me referindo e que por acaso, ainda bebê de colo, foi minha cliente representada pela mãe e pela avó, na busca de uma pensão alimentícia a ser paga por um pai ainda adolescente e totalmente desprovido de qualquer condição financeira.

Lembro-me que em audiência de conciliação, o jovem pai, por não nenhuma espécie de ganho ou de qualificação para obter um emprego, restou condenado a pagar uma pensão alimentícia no valor mínimo que os juízes da nossa comarca costumam fixar em tais casos, ou seja, 30% do salário mínimo nacional. Evidentemente, a mãe e a avó, ficaram zangadas com tal decisão, eis que entendiam ser uma quantia irrisória que não daria para “criar uma filha”, conforme suas próprias palavras. De nada adiantou eu tentar explicar-lhes a respeito do famoso binômio possibilidade/necessidade. Elas entendiam que o juiz deveria ter condenado o rapaz a pagar uma quantia maior e ele que “se virasse” para pagar.

Acabei entrando em desacordo com elas e encerrei por ali a minha relação de trabalho com as duas (três, na verdade). Tempos depois, fiquei sabendo que em virtude do pai, agora com dezoito anos, não ter efetuado os pagamentos da pensão na data aprazada, elas buscaram a defensoria pública que ingressou com uma ação de execução de alimentos e ele, em não tendo como pagar, acabou indo parar na prisão.

Lá dentro, acabou ficando “escolado” e aprendeu tudo o que era necessário para iniciar uma vida voltada para o crime. Soube de todos os contatos necessários para comprar armas, adquirir drogas para revender, pessoas que fazem o transporte e outras “cositas mas”.

Ao sair, o fato de ter estado preso, fez com ele “subisse no conceito”, conforme se diz na gíria dos criminosos. Despreparado para obter qualquer tipo de emprego e com a mácula de ter sido presidiário, ele não pensou duas vezes: iniciou seu negócio de vender drogas e em breve, já estava com uma moto e um local bastante freqüentado por carros de luxo. Evidentemente, este fato acabou chamando a atenção das autoridades que acabaram fazendo uma “batida” no local e o rapaz acabou preso, acusado e condenado por tráfico de drogas. Triste final para algo que começou com um simples amor de adolescentes.

É que apesar de todos as informações que os jovens recebem hoje em dia, parece que nada adianta: a sexualidade ainda é praticada sem qualquer cuidado para evitar as doenças sexualmente transmissíveis e a gravidez. E assim, temos uma sucessão de meninas gerando outras crianças, sem terem condições econômicas ou psicológicas para tanto.

Com pais e mães ainda não preparados para criarem um filho e com avós que precisam se ausentar o dia inteiro para obterem o sustento da família, eu fico me perguntando como é que essas crianças crescem. Quais os valores que acabam dirigindo suas vidas? Quais serão suas referências diante do fato notório de que a família que deveria ser para elas um ambiente de proteção integral, não vem mais cumprindo sua principal função que é justamente a de lhes dar o aporte afetivo necessário para o seu desenvolvimento saudável, despertando-as para os principais valores éticos e de conduta socialmente aceitos?

Fica bem evidente que, em sua maioria, os modelos que elas irão seguir, são aqueles ditados pelas ruas, pela falsa malandragem, pela pequenez de objetivos e de perspectivas e em breve, elas continuarão dando seqüência ao ciclo iniciado pelas suas gerações anteriores. Muitas dessas meninas em breve estarão trazendo à vida novas crianças condenadas ao desamparo e os meninos, possivelmente acabarão freqüentando a “universidade do crime” que é a prisão. É um círculo vicioso que, se não for cortado imediatamente por alguma iniciativa conjunta das famílias, da sociedade e dos governos, seguirá assolando e comprometendo inexoravelmente boa parte de nossas novas gerações.

Jorge André Irion Jobim. Advogado de Santa Maria, RS



Publicado no site

http://www.webartigos.com/articles/48051/1/MAESMENININHAS/pagina1.html


Publicado no site


http://www.artigonal.com/adolescentes-artigos/maes-menininhas-3374090.html


sábado, 23 de outubro de 2010

QUERIA SER


KARIMAN
QUERIA SER


Letra de música composta por Jorge André Irion Jobim e que fez parte do show Hoje eu Vou Fugir de Casa, apresentado pela Banda Kariman no Clube de Cultura em Porto Alegre no ano de 1.975


Queria ser
Como o vento que passa correndo de norte a sul sem parar
Queria ser
Como a água dos rios que correm prá o mar e se elevam aos céus
Depois cair
Sob a forma de chuva e molhar os cabelos dos que sabem amar
Eu queria ser o sol
E em cada amanhecer
Milhões de rostos beijar

Assim como estou
Não consigo romper as correntes que o mundo colocou em mim
Quero voar
Pelo infinito azul a buscar novos rumos e a fonte do amor
Mas ao tentar
Sinto o mundo barrando os meus passos e então volto a sentir o frio
Gelar o meu coração
O pranto amargo desliza e então
Só me resta gritar

Hey irmãos
Vamos transpondo mares e montes
Varmos alargar os horizontes
Vamos buscar um mundo de paz

Hey irmãos
Vamos vencendo as nossas mentes
E vamos plantando a semente
De um amor infinito
A cantar, a cantar.

Queria ser
Tanta coisa porém o destino dos sonhos é igual ao meu
Ao amanhecer
Eles morrem e eu sinto que vou morrendo aos poucos também
Realidade
Não permite que eu venha a construir o mundo que eu sonhei
Eu queria dar amor
Mas não sei mais de mim me perdi do caminho, só me resta gritar

Hey irmãos
Vamos transpondo mares e montes
Vamos alargar os horizontes
Vamos buscar um mundo de paz

Hey irmãos
Vamos vencendo as nossas mentes
E vamos plantando a semente
De um amor infinito
A cantar, a cantar.

Jorge André Irion Jobim. Músico e Advogado

A música era cantada pelo cantor Eduardo Ribeiro Camelo, o Edu. A gravação a seguir é bem rudimentar, apenas eu e meu violão, mas dá uma idéia da melodia.

QUERIA SER



quinta-feira, 30 de setembro de 2010

ACASOS


Não gosto de encontros agendados, daqueles que nos induzem a termos emoções premeditadas, tal qual a daquelas pessoas que, ainda sem terem deitado os olhos no bebe recém-nascido, já vão exclamando a velha frase: “ ah, mas que coisa mais linda”.

Hoje em dia vejo gente andando na rua com seus celulares marcando reuniões a qualquer momento do dia. Eles deixaram de lado aquela sensação mágica dos encontros que ocorrem ao sabor do acaso, os únicos que nos provocam emoções verdadeiramente de alegria, dependendo é claro da pessoa com a qual nos encontramos. Tais momentos, sempre que acontecem, são cheios de lembranças e o tempo parece curto para tantas histórias a serem contadas. Neles, as reminiscências soam como uma tentativa de recuperar um longo tempo perdido e de reavivar imagens que já estavam se desbotando pela ação do tempo. Emoção pura, sem o artificialismo ou formalismo dos encontros marcados.

Acho que as modernas tecnologias deveriam ser deixadas apenas para serem utilizadas naqueles casos em que temos a quase certeza de que não veremos mais uma determinada pessoa a quem muito estimamos e da qual estamos prestes a nos afastarmos de maneira quase que definitiva. Aí sim, será válido o uso da tecnologia. Em tais casos, ela nos possibilitará aquele último momento de convivência, a última conversa, quase sempre acompanhada de algumas ou de muitas lágrimas Ah, e também para que, no momento de dizermos adeus, possamos guardar na retina aquela que poderá ser última imagem ao vivo daquela pessoa que nos é tão querida.

Já, em relação àquelas pessoas que convivem dentro de um espaço geográfico que proporcione uma razoável possibilidade de nos cruzarmos casualmente com elas, eu prefiro deixar que a aleatoriedade, a qualquer momento, me oportunize espontaneamente a emoção de encontrá-las em uma dessas muitas esquinas da vida. Só assim terei certeza da sinceridade das emoções que serão exteriorizadas.

Jorge André Irion Jobim

quinta-feira, 22 de julho de 2010

FLOQUINHO. O MESTRE-CÃO




Heresia, dirão alguns ao me ouvirem dizer que meu elo de ligação (re ligio) com o universo é o Floquinho, meu pequeno cãozinho de raça indefinida que há sete anos praticamente faz parte constante do meu dia-a-dia. Vivemos em uma relação, não de igualdade, mas de quase-igualdade pois eu o considero, como a qualquer animal, superior a mim e todos os outros insignificantes seres da minha espécie.

Nos anos de nossa convivência, muito tenho aprendido com ele. Cada vez que me deparo com um problema daqueles que costumam atormentar a todos nós, seres humanos e para os quais nunca encontramos resposta, mais admiração eu tenho pelo meu cãozinho. Aliás, devo dizer que, embora eu seja um ateu convicto, se tivesse que escolher uma forma para um deus qualquer, creio que ele estaria bem servido tendo a imagem e semelhança de um cão.

Que bom seria que o Floquinho pudesse me ensinar a ser bicho e a me livrar de todo esse nosso lixo cultural, passando a viver acima do bem e do mal e de outros milhares de maniqueísmos que construímos ao logo da história. Afinal, todos os nossos anos de estudo, construções faraônicas, obras de arte, centenas de livros devorados, complexas construções teóricas a respeito de tudo, nada consegue nos trazer as respostas que precisamos e até hoje ainda continuamos discutindo qual o rumo da humanidade sem atingirmos o nosso intento.

Pois o Floquinho, logo que clareia o dia, vai até a porta, olha, ouve e cheira o ar e pronto: apenas com os sentidos ele já sabe exatamente tudo o que precisa e qual o rumo a tomar. Sem traumas ou teorias. Apenas o agir.

E nós seres humanos, com todas as nossas ditas grandes conquistas, tudo o que temos de sobra é tão somente guerra, devastação e destruição de nosso próprio habitat, o planeta terra. Quanto mais aprendemos, mais duvidas aparecem e se buscamos soluções, mais a nossa confusão aumenta.

Confesso que muitas vezes já me peguei pensando que eu bem que gostaria de trocar essa nossa pretensa civilização por uma simples vida de cão. Longe dos seres humanos, é claro.

Espero que continuemos por muito tempo ainda esta nossa relação perfeita e respeitosa de aluno e professor. Ele o mestre e eu, o aprendiz.

Jorge André Irion Jobim

sábado, 8 de maio de 2010

KARIMAN. O REENCONTRO

Recorte do jornal Zero Hora de 1975.


PELAS BANDAS DO ROCK

Tudo começou naquela tarde de sábado, quando recebi um telefonema do baterista Tonho, antigo companheiro de música do Kariman, banda de rock dos agitados e confusos anos 70. Ele me passou um endereço, dizendo que eu fosse até lá que eu teria uma boa surpresa. Curioso, no horário determinado fui até o local e qual não foi minha surpresa quando dei de frente com meus outros antigos parceiros. Lá estavam o Edu (Eduardo Ribeiro Camello), o Taby (Altamir Floriano Pedroso) e naturalmente, o Tonho (Luiz Antonio Martins da Silva).

Foi uma grande alegria. Aqueles quatro amigos beirando os sessenta anos não se continham de tanta emoção diante daquele inesperado reencontro. Passamos horas relembrando antigas histórias vividas nos espinhosos caminhos do rock dos anos sessenta e setenta, época em que existiu o grupo Kariman, aliás, a primeira banda de rock de Santa Maria a ir se fixar em Porto Alegre. Era uma fase em que ainda se fazia um rock praticamente de forma artesanal, e esta é razão de tantas histórias que acabaram virando lenda.

Rememoramos diversos grupos com os quais convivemos e fizemos shows juntos. Entre eles, o lendário Bixo da Seda (antigo Liverpool) do Fughet Luz, Mimi, Marcos Lessa, Edinho e Pecos (substituído depois por Cláudio Vera Cruz). Também havia o grupo Bobo da Corte do guitarrista Zé Vicente Brizola e da baterista Gata, o Utopia de Bebeto Alves, além do Bizarro com a qual fizemos shows inesquecíveis no Elizabeth Parque Clube.

Como se ainda fossemos jovens, saímos a caminhar à toa pela cidade em meio a tantas conversas e lembranças. Até que escutamos música vinda de dentro de uma dessas casas noturnas que apresentam música ao vivo. Entramos e ficamos escutando, quando um dos músicos que havia nos conhecido, pediu para que déssemos uma “canja”, como se diz na gíria musical.

Não pensamos duas vezes. Subimos no palco e, embora não tocássemos juntos há trinta anos, desfiamos músicas de nosso antigo repertório como Something, Anytime at all, Dont let me down (Beatles), I Started the Joke, First of May (Bee Gees) Angie, Lady Jane (Rolling Stones) e naturalmente, músicas de nossa autoria como Queria Ser, Preciso Urgentemente lhe Falar, O Escritório, Hoje eu vou Fugir de Casa, Companheiro e tantas outras. Foi uma emoção inesquecível. Parecíamos de novo aqueles jovens músicos que sonhavam em mudar o mundo com a força de canções com melodias simples e letras ingênuas falando de amor e de um mundo de paz.

Lá pelas tantas, chegaram os nossos velhos amigos, Paulo Rosa e Bidão (Alcebíades Fernandes de Melo) que chegaram a fazer parte de nosso grupo durante algum tempo. Juntamo-nos em uma espécie de “jam session” e a música continuou fluindo de forma improvisada. Quanto mais a platéia aplaudia, mais queríamos tocar.

De qualquer maneira, tudo o que é bom tem que acabar. Chegou a hora da casa fechar e tivemos que ir embora. Como nos velhos tempos, fomos para um desses bares que amanhecem abertos e recebem aqueles boêmios de fim de noite, entre eles, os músicos, garçons e damas da noite que saem de seus trabalhos. Ocupamos uma mesa e continuamos nossa sessão nostalgia. Para relembrar nossos finais de noite no Mercado Público na época em que tocávamos em Porto Alegre, pedimos batida de mamão acompanhada com cachorro-quente.

Muita conversa rolou, até que resolvemos ir embora, cansados, mas com a alma leve e renovada com tudo o que havia acontecido. Nos despedimos fazendo planos de nos encontrarmos novamente e saímos, cada qual para o seu lado.

Fui caminhando devagar ainda envolvido por aquela emoção maravilhosa quando, de repente, ao virar a esquina, tive a sensação de que eu estava me desvanecendo e desaparecendo no ar. Quando abri os olhos, me dei conta de que estava deitado em minha cama com o meu cão Floquinho encostado aos meus pés.

Aí é que eu fui perceber que, infelizmente, tudo não havia passado de um sonho. Eram cinco horas da manhã e não consegui mais pegar no sono. Fiquei deitado na cama rememorando aquele sonho e lamentando que o fato dele não ter sido realidade.

Lá pelas tantas, o dia raiou e iluminou o quarto. Levantei e voltei para a minha atual realidade. Fui para a minha sala e logo eu estava envolvido novamente com livros, doutrinas, jurisprudências, petições e pesquisas. Desta vez, tangido por aquela estranha sensação de um reencontro que não aconteceu e envolvido por aquela suave nostalgia relativa a um tempo em que os jovens ainda planejavam um mundo melhor, acreditavam em utopias e sonhavam sonhos que hoje, não mais arriscamos a sonhar.

Jorge André Irion Jobim

Música Companheiro que fazia parte do repertório da Banda Kariman. Aqui ela foi gravada apenas por mim em um programa caseiro e com um velho violão que eu ainda conservo pendurado na parede. Pela falta de uso, ele já está fora de escala. De qualquer maneira, dá uma ideia de como era a música.

terça-feira, 6 de abril de 2010

O BOLO DE CHOCOLATE

Você sabe aquelas pessoas que estão sempre te criticando por qualquer coisa que faças? Pois eu vivo rodeado delas. Até sinto pena do Presidente Lula, atualmente transformado no grande Judas brasileiro, malhado de todos os lados pelos meios de comunicação subservientes aos interesses escusos das minorias. Veja-se que ele é considerado culpado de todas as mazelas que acontecem e aconteceram no Brasil desde a sua invasão no ano de 1.500. Já foi culpado inclusive de tsunames, terremotos, crises econômicas, nevascas, desmoronamentos etc. Chega a ser hilário o esforço que alguns jornalistas lacaios fazem para ligá-lo aos mais diversos infortúnio que ocorrem nos quatro cantos do mundo.

Como eu tenho algumas ideias fora dos padrões considerados normais, recebo críticas de todos os lados, algumas bastante iradas. Com minha mania de fazer a defesa do meio ambiente, algumas dessas pessoas, mesmo sem saber o que é, acreditam firmemente no antropocentrismo e acham que tudo que está ao seu redor é para servir ao homem. Assim, elas dizem que árvores são para serem cortadas e que os animais são para serem mortos sempre que isso trouxer algum benefício para os seres humanos, contrariando frontalmente o meu ponto de vista.

Agora, o que pensar quando uma dessas tuas críticas sistemáticas chega com um bolo de chocolate embrulhadinho em um plástico e te diz: - Toma de presente, eu ia passando em uma padaria, vi este bolo, lembrei que tu gostas e resolvi te trazer de presente?

Pois isso aconteceu comigo e, é claro, a minha primeira reação foi de perplexidade. Afinal, fiquei sem saber ao certo se ela estava brincando ou falando sério.

De qualquer maneira, fiquei imaginando que aquela pessoa poderia sim ter tido um “lampejo de bondade” e realmente se lembrado de tentar amenizar um pouco as críticas infundadas que está sempre me dirigindo. E assim, para não fazer desfeita, até porque sou presa fácil das tentações da gula, fui abrindo imediatamente o invólucro do bolo.

Ao abrir o plástico, percebi que já haviam cortado um pequeno pedaço dele. Bem, pensei eu; ela quis dar um provada, afinal, quem é que resiste a um bolo de chocolate? Sem me importar com isso, cortei uma fatia bem exagerada como sempre, e dei a primeira mordida. Foi quando eu percebi que ele estava totalmente “abatumado”.

Aí então é que eu fui perceber que na verdade, o tal lampejo de bondade” nunca havia lhe aflorado. Ela deve ter comprado o quitute para ela, provado, e, como é daquelas pessoas cheias de mania em relação aos alimentos, ao notar que ele estava meio cru, resolveu me fazer uma presença, alegando que “havia se lembrado de mim ao ver o bolo”.

Bem. Como eu disse, eu fujo aos padrões da normalidade e um dos sinais, é o de que eu gosto de pão abatumado. Eu comi todo o bolo que seria rejeitado pela maior parte das pessoas e espero sinceramente que todos os outros que ela venha a comprar, estejam no mesmo estado. Só assim, eu serei “lembrado” mais vezes e agraciado com tais presentes, ainda que eles provenham de uma repentina e falsa “faísca de generosidade”.

Jorge André Irion Jobim

segunda-feira, 1 de março de 2010

ABDUÇÃO DE FREGUÊS


Todo o pequeno estabelecimento comercial das periferias, entre eles os mercados, armazéns, botecos, vendas, biroscas e congêneres, vivem do comércio varejista de pequena monta, geralmente aqueles itens que as pessoas esqueceram de comprar nos grandes hiper e supermercados. Mas a melhor fonte de renda de tais negócios, é justamente a venda de bebida alcoólica, geralmente consumida em cadeiras colocadas do lado de fora de tais estabelecimentos.

Ao passarmos por alguns destes locais, sempre encontramos alguns fregueses que, em virtude da habitualidade com que os freqüentam, acabam se tornando umas espécies de móveis e utensílios dos ditos botecos. Alguns destes clientes são tão bons, que acabam tendo o privilégio de poderem abrir contas “no caderno” pagáveis sempre no fim do mês, época em que recebem seus salários ou suas aposentadorias.

Não é raro termos notícias de que alguns deles deixam na venda, quase 50% de seus ganhos. Como são bons pagadores, muitos deles são bastante disputados pelos donos das biroscas, claro que dentro de uma certa ética.
Será? Nem sempre. Às vezes isso acontece de maneira bastante inusitada. Por exemplo, alguém já ouviu falar em abdução? Para quem não sabe o que é, trata-se de uma figura vedada nas relações de direito internacional que se consubstancia em levar uma pessoa de um país para o outro através de fraude, violência ou sedução.

Pois outro dia, eu passando na frente de uma venda, vi um desses fregueses habituais bebendo sua famosa “cervejinha” na companhia do dono de outro estabelecimento bastante conhecido por ter também os seus fregueses “de fé”. Achei estranho aquele senhor sair do seu bar e ir beber em outro. De qualquer forma, achei que ele podia estar querendo “mudar de ares”.

Permaneceram ambos ali conversando durante certo tempo, até que, quando o “bebedor inveterado” estava já bastante “alegre”, o dono da outra venda se retirou, dando a entender que estava indo embora. Pois não é que dali uns dez minutos, ele retornou de carro e levou com ele o freguês “nota dez” daquele mercadinho?

Bem, até aí nada de mal, afinal, eles poderiam ter algum assunto pendente em comum e estarem saindo juntos para resolvê-lo. Acontece que mais tarde, quando fui fazer minha caminhada, ao passar pelo bar do segundo bodegueiro, quem estava lá? Pois é. Justamente aquele mesmo freguês preferencial da outra venda com o qual ele estava conversando anteriormente.

Foi então que percebi que se tratava de uma nova forma de ganhar na disputa de tais clientes bons pagadores. Vai-se até o lugar onde eles freqüentam, passa-se neles uma boa conversa, espera-se que os efeitos do ácido etílico os deixe mais vulneráveis e os convida a mudarem seus hábitos, aliciando-os a beberem em seus bares. É uma nova modalidade que, por analogia, podemos chamar de abdução de fregueses. É claro que no caso em que estou tratando, realizada através do poder de sedução do abdutor.



Jorge André Irion Jobim

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

CENAS DE NATAL


Jesus Cristo e os vendilhões do templo

De início, devo deixar claro que não gosto do Natal, assim como não gosto de outras datas que incentivam as pessoas ao consumismo desmedido Impreterivelmente, é uma data em que ficam mais transparentes as desigualdades sociais, já que algumas poucas crianças ganham presentes caríssimos e participam de lautas refeições, enquanto outras tantas têm que entrar em alguma fila de doações para ganhar um presentinho qualquer e algum cachorro-quente acompanhado com um copo de um refrigerante barato.

Se o Natal possuía algum significado mais profundo, ele acabou se diluindo na força irresistível do apelo da orgia de consumo que só favorece ao capitalismo, insensível a tais desigualdades.

Nessa época, sempre me acorrem de maneira mais intensa, já que eu as tenho presentes diuturnamente desde que as vi acontecerem, algumas situações que eu assisti com meus próprios olhos e que me marcaram sobremaneira.

Uma delas, foi a cena de um menino na frente de uma loja de brinquedos na Rua do Acampamento, em cuja calçada estavam expostos alguns brinquedos. Entre aqueles objetos do desejo de qualquer criança, estava um caminhãozinho grande, com direção, alavanca de mudanças, pedal de freio, enfim, parecia um veículo verdadeiro. O menino mal vestido e de pés no chão, talvez consciente de que nunca poderia almejar ter um brinquedo daquele porte, à distância, utilizando-se apenas da própria imaginação, movimentava as mãos e reproduzia com a boca o som de um carro, como se ele próprio estivesse dirigindo e tocando o objeto que lhe era impossível adquirir.

Aquilo sensibilizou várias pessoas que passavam pelo local e percebiam a cena comovente. Eis que de repente, um rapaz uniformizado, evidentemente contratado para fazer a segurança da loja, aproximou-se do menino e mandou-o se afastar dali pois estaria atrapalhando os fregueses. Como o garoto não obedeceu, ele acabou pegando-o pelo braço e levando-o para longe, mesmo diante da manifestação de repúdio de algumas pessoas que estavam por perto. Ele parecia orgulhoso e seguro de estar cumprindo um dever sagrado. Ou seja, era o espírito do natal capitalista aflorando na atitude daquele segurança. O menino mal trajado e despossuído estava atrapalhando o trânsito das pessoas com poder aquisitivo para levar para casa os produtos expostos.

Era na verdade, alguém a quem pagam um salário irrisório que o coloca um pouco acima da condição de indigente, reprimindo pessoas em condições de total miserabilidade com o objetivo de proteger o vasto patrimônio de empresas caracterizadas pela impessoalidade inerente às modernas técnicas de gestão de recursos humanos que, tão logo não precisem mais dele, o colocarão no olho da rua sem pensar no drama que irão causar em sua vida e sem contar com o fato de que então, ele voltará à mesma condição daquelas pessoas as quais ele um dia reprimiu.

Diante de cenas assim, eu me pergunto: será que aquele menino que nasceu há mais de dois mil anos, que teve como berço uma simples manjedoura ficaria feliz assistindo ao show de artificialismo e consumismo em que transformaram a data do seu nascimento? Será que ele não teria a mesma reação que teve quando, percebendo que seu local sagrado havia se tornado um local de comércio e de exploração, investiu irado contra os vendilhões do templo munido de um chicote expulsando-os dali?

Jorge André Irion Jobim
Publicado nos sites

sábado, 7 de novembro de 2009

NICOLY MOSSATTE RAMOS. O PRIMEIRO ANIVERSÁRIO



Pois a menininha que nos emocionou quando nasceu, até pelo fato de ser filha de uma mãe que estava recém adentrando na adolescência, já está completando um ano hoje, dia 07 de Novembro de 2.009.

Eu acabei me tornando seu padrinho e mantemos um contato quase diário, o que me propicia tentar implantar nela desde pequena, o amor pelos animais e pelas plantas. Bem, na verdade eu acho que ela já demonstra ter uma personalidade bastante forte e não será fácil convence-la de qualquer coisa na qual ela não acredite realmente. De qualquer forma, vou seguir cumprindo o meu papel de padrinho anarquista, tentando livra-la do germe do consumismo.



Lembro-me que quando ela nasceu, a primeira mensagem que dei para sua mãe, Ruliani Mossatte Ramos, foi a de que “O MELHOR CONSELHO É O EXEMPLO”. Parece-me que a minha máxima foi bem aceita e ela está tentando segui-la.



Ao vir ao mundo, Nicoly me inspirou a compor uma musica de ninar para a qual eu dei o nome de Canção para Ninar Nicoly. Gravei a melodia em um programa caseiro do computador e dei de presente para ela em um CD. Dizem que muitas vezes ela dormiu embalada pela minha musiquinha. Quem quiser ouvir, é só clicar abaixo. A letra é assim:

Canção para Ninar Nicoly

Paz na terra
Que a Nicoly já nasceu
Refrão
Cessem as guerras
Que a menina adormeceu

Perfilaram-se os planetas
Iluminaram-se as estrelas
No céu, uma salva de cometas
Tudo para recebe-la

Refrão

A vida fluiu naturalmente
Sem desvios, sem barragens
O universo todo se curvou
Só para lhe dar passagem

Refrão

Nana nenê
Que ninguém vai te pegar
Os bichos vivem na floresta
E o boi só quer pastar

Nana nenê
Que eu não vou trabalhar
Hoje é feriado nacional
Estou aqui só para te cuidar

Jorge André Irion Jobim



A menininha recebeu uma homenagem dos padrinhos Jorge André Irion Jobim e Adriane Guarienti através da publicação de uma foto e de parte da letra da Canção de Ninar Nicoly no Jornal A Razão de Santa Maria, RS, no dia 06 de Novembro de 2.009. É só clicar abaixo e procurar na seção Galerinha de Vilceu Godoy.
http://www.scribd.com/doc/22189042/061109

domingo, 16 de agosto de 2009

EDITORA PODER

Toda criança demonstra desde a tenra idade algumas tendências daquilo que poderá vir a exercer profissionalmente no futuro. Lembro-me que, atraído pelo mistério que envolvia a liturgia e o brilho das catedrais, minha primeira vontade foi a de ser padre. Por conta disso, li o velho testamento que vinha em capítulos em uma enciclopédia que meus pais assinavam e da qual recebíamos um volume por mês. Achei aquilo tudo uma atrocidade mas ainda assim, li um resumo do novo testamento. Foi aí que descobri que estava no caminho errado, já que a pompa e a riqueza dos templos religiosos, contraditoriamente não combinavam com a vida difícil e simples dos primeiros apóstolos.

A seguir, de tanto ler histórias nos livros de criança, eu enveredei para o lado da química, aliás, da alquimia, já que eu juntava as provetas velhas e rachadas de uma farmácia que havia ao lado de minha casa e nelas vivia misturando chás que eu considerava misteriosos no afã de descobrir a panacéia, o elixir da longa vida ou a pedra filosofal. Como evidentemente eu nunca cheguei a resultado algum, acabei desistindo.

Foi então que descobri os super-heróis. Passei a querer ser um soldado defensor dos fracos e oprimidos, que andaria pelo mundo sempre lutando em defesa da justiça. Mitos de minha adolescência como Che Guevara e Fidel Castro, ajudavam a acalentar meus sonhos.
É claro que entremeado a tudo isso, somado ao fato de que o Brasil havia sido bi-campeão mundial em 1958 e 1960, eu pensei também em me tornar um jogador de futebol, coisa que, como já relatei em outro artigo, acabou não dando certo. Foi então que comecei a estudar as notas musicais, encantei-me com elas e, embalado pelos Beatles, Rolling Stones, Roberto e Erasmo Carlos, Vanderléia, Jerry Adriani, etc., acabei descobrindo a minha grande vocação: ser músico. Na adolescência eu adorava compor musiquinhas simples falando dos amores da juventude e acabei exercendo a profissão por mais de trinta anos. Embora hoje eu seja advogado, foi a minha grande paixão. Como se vê, foi uma longa sequência de tendências até chegar ao que eu realmente queria.

Com meu filho André Vinícius não foi assim. A única coisa em comum que tivemos, foi a vontade secreta de jogar futebol mas acho que isso não vale pois eu não conheço um menino que não tenha sonhado em brilhar nos gramados. Ele desde cedo teve uma tendência muito grande pela leitura e vivia devorando livros. Não contente com isso, resolveu escrevê-los. Para tanto, criou aquela que ele chamou de Editora Poder. De posse de alguns pacotes de folha de ofício, passou a criar jornais, documentários, enciclopédias e revistinhas para todos os gostos e idade que acabaram ficando famosas aqui na Vila Norte, já que ele as vendia na vizinhança por preços simbólicos. Até hoje eu encontro pessoas que me falam que guardaram como todo o carinho os exemplares que compraram.

Eu me tornei o fã nº 1 de suas publicações e seu comprador preferencial. Hoje tenho mais de uma centena delas guardadas. Ah, é importante frisar que eram todas artesanais, não eram repetidas; cada exemplar era único, tal qual uma obra de arte de um pintor ou um escultor famoso.

Outro dia fiquei encantado revendo algumas de suas revistas. Pude constatar que por elas passaram todos os grandes acontecimentos ocorridos no mundo entre os anos de 1989 a 1998, fase em que ele as escreveu. Claro que tudo sob a ótica inocente de uma criança, coisa que as torna mais interessantes. Na área musical, ele escreveu sobre várias bandas tal como, Rolling Stones, Wings, além de uma série antológica sobre os Beatles, na qual existem desenhos dos quatro cabeludos de Liverpool que nos causam dúvida sobre terem sido feitos por uma criança. Para não dizer que ele apenas escrevia sobre os grandes astros da música, devemos ressaltar que existe uma revista em que ele escreveu sobre o desconhecido Musical Aquarius, banda na qual eu tocava na época. Havia histórias de heróis conhecidos, como o Batman, National Kid, Capitão Gancho, etc., mas também personagens criados por ele mesmo, como Dion Taiger Charigen, Liu Kang, Miafino, Condor Man, Capitão Natureza, Astropectan, Super Lesma, Capitão Feio, O Homem Capoeira, Detkon TC, Fox Man, etc.

Na área cultural, tivemos dicionários das palavras mais usadas na língua portuguesa, cursos de espanhol e de inglês, Atlas do Brasil, Dino O Livro, Plantas Medicinais, Saúde e Vida, Corpo Humano e Inventores de Verdade. Havia algumas revistas em série, entre elas a Poder Rural, Poder Negócios e o Poder Ciência.

Eram interessantes também, as histórias sobre a gurizada da vila, cujas proezas foram imortalizadas em revistas como A Turma do Nicinho, A Turma da Cleuzinha A Turma da Tuca e A Turma da Tina. De não menos valor, tínhamos as revistas de Horóscopo, Previsões, Folha de Notícias, Livro de Piadas, Retrospectivas e a Revista da TV.
O forte de suas publicações no entanto, eram as revistas de esporte. Ele praticamente documentou todo o desenrolar da Copa de 1.994 na qual o Brasil sagrou-se tetracampeão mundial. Escreveu revistas sobre o Grêmio e o Internacional, além de outras em que discorria sobre os grandes clubes do mundo.


Bem, o menino cresceu, foi para a faculdade e hoje é formado em História. A primeira vista, pode parecer que ele desistiu de ser um editor, porém eu acho que não. Acredito que ele apenas está dando um tempo. Seu amor pelos livros permanece e ele busca incansavelmente o conhecimento. Ele ainda não tem condições de ter sua própria editora, porém continua escrevendo coisas e publicando, não em livros impressos por ele mesmo, mas em um destes instrumentos modernos de disseminação de idéias, os blogs. Mas quem sabe daqui a algum tempo ele não venha a espraiar conhecimento para além dos limites da Vila Norte, fazendo ressurgir a lendária Editora Poder com todo o esplendor dos seus anos dourados. Eu tenho um sério palpite de que o sonho ainda não acabou.

Jorge André Irion Jobim

quinta-feira, 18 de junho de 2009

REINO DA ATAVUS. A PRINCESA NATHÁLIA


A história


Seguidamente me pego lembrando do tempo em que eu ficava fascinado com algumas histórias que meu avô contava quando eu era menino. Ele tinha um jeito todo especial para contá-las, já que havia passado por muitas experiências, tendo uma visão da vida completamente diferente daquela que tinham as outras pessoas.

O reino de Atavus

Ele sempre relatava que em uma de suas viagens pelas longínquas terras do norte, passou por um reino chamado Atavus, nome que era originário da língua latina e que significa o pai do trisavô ou da trisavó, ou seja, os antepassados. Em português significa aquilo que é transmitido ou adquirido por atavismo, que é justamente a herança de certos caracteres físicos ou psíquicos de ascendentes remotos. O nome vinha do fato de que os habitantes do reino acreditavam que todas as verdades últimas nos são transmitida geneticamente, bastando que nós saibamos revelá-la através da meditação profunda.

A religião

Segundo ele, o que mais lhe chamou a atenção no reino de Atavus, foi o fato de que lá não havia religião e portanto, não existiam deuses. A população atendia suas necessidades místicas plenamente apenas com a comunhão e harmonização com o universo. Assim sendo, não havia necessidade alguma de religiões que pudessem aprisionar suas mentes.

Os pecados

Lá também não existiam pecados, já que os habitantes em harmonia com o todo, seguindo o fluxo natural da vida e aceitando que os outros também o seguissem, não extrapolavam os limites praticando condutas que pudessem ser lesivas ao grupo e que pudessem ser erigidas à condição de pecado.

O governo

No reino de Atavus, as pessoas que mais se destacavam por seu conhecimento, sabedoria e ações, eram naturalmente elevados pela população à condição de governantes, passando a ser chamados de Rei ou de Rainha. Na verdade, eram uma espécie de grandes conselheiros que, tal qual um farol, procuravam indicar aos demais habitantes, qual o caminho a ser seguido nas questões essenciais que pudessem abalar o reino.

Os reis

Contava meu avô que na época em que ele por lá passou, o rei e a rainha eram pessoas muito sábias e magnânimas. Pairava porém, uma certa tristeza no semblante das pessoas, pois apesar de toda sua paz e harmonia, faltava-lhes alguma coisa que eliminasse uma espécie de cor cinzenta que predominava no reino e que retirava um pouco da alegria dos habitantes.

A princesa

Foi justamente por isso, que as forças da natureza que tinham um carinho especial pelo Reino de Atavus, se reuniram extraordinariamente e resolveram que para atingir a perfeição, ele precisava de alguma coisa que lhe trouxesse alegria e colocasse sorrisos nas faces de seus moradores. Foi assim que decidiram enviar para o rei e a rainha, uma princesa cujo destino seria o de colorir o reino com as cores da felicidade.

O nome

Logo que ela nasceu, ares de um novo tempo já começaram a soprar por todo o território de Atavus e os pais orgulhosos tiveram que decidir qual seria o nome dessa princesa. É necessário esclarecermos que, na época, os nomes eram dados posteriormente ao nascimento da criança, sempre levando em conta as características e tendências naturais por ela apresentadas logo em seus primeiros anos. Tal qual acontecia com algumas tribos indígenas, eles entendiam que o nome deveria surgir naturalmente, como se fosse dado pelo próprio universo através do murmúrio do vento.

A escolha

E assim aconteceu. A primeira parte do nome da princesa foi fácil. Como os reis eram muito eruditos, decidiram que o nome iniciaria com “nata”, palavra de origem latina que significa filha. Só faltava agora, a continuidade do nome, justamente a parte que iria caracteriza-la e diferencia-la das demais crianças. Foi assim que passaram a observa-la atentamente na medida em que ela ia crescendo.

Como a menina vivia no mundo da lua, chegaram a pensar em chamá-la de Nathalua. Mas a rainha observou que ela também gostava de contos, histórias e lendas, surgindo a idéia do nome Nathalenda. Não, pensou o rei; ela vive correndo e girando como um vento norte; vamos chamá-la de Nathavento.

Até que, finalmente, como observaram que ela era uma criança que lia o dia inteiro, decidiram dar-lhe o nome de Nathalia. Acontece que a população, por acha-la muito linda, acabou apelidando-a de Nathalinda e esse foi o nome que acabou predominando.

A aquarela

Dúvidas à parte, meu avô ressaltava que a partir do momento em que a Princesa Nathalia ou Nathalinda nasceu, o reino nunca mais foi o mesmo. Tal qual uma aquarela viva, ela passou a colorir todo o reino com suas cores alegres e contagiantes.

Mas não era só isso. Muitas histórias de suas traquinagens ficaram célebres, cruzaram mares e montanha, sendo até hoje contadas pelos quatro cantos do mundo. Bem, mas isso é assunto para outro capítulo. Esperem e verão.

Jorge André Irion Jobim.